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Setembro/84

Política

Cresce tensão entre os militares, Tancredo procura apoio militar, mas Maluf e Imprensa o critticam

- Por causa das tensões entre Aureliano Chaves e as Forças Armadas, desconvidado de cerimônias do governo, Tancredo aconselhou o vice a comparecer à cerimônia oficial de comemoração do dia 7 de setembro, em Brasília.
- Clima tenso durante o evento de 7 de setembro. O presidente Figueiredo subiu ao palanque das autoridades, cumprimentou Aureliano e ficou ao seu lado por 1 hora e meia sem lhe dirigir a palavra. Foi a maior demonstração de tensão entre presidente e vice da história do país.
-Tancredo Neves se encontrou com o ex-presidente Ernesto Geisel no Rio de Janeiro por 1 hora e 10 minutos, na busca de apoio do principal líder dos militares. Tancredo tinha respostas para as maiores preocupações do ex-presidente: mudanças no SNI, afastamento das Forças Armadas do processo político, dívida e inflação. Geisel já havia sinalizado que não iria apoiar Maluf e que ficaria neutro em relação à candidatura de Tancredo.
- Mesmo com o forte esquema de segurança montado para a inauguração das novas instalações do Aeroporto de Salvador, um grupo de pessoas vaiou o presidente Figueiredo, chamou o candidato Paulo Maluf de “ladrão” e gritou o nome de Tancredo Neves. No centro de Salvador, uma passeata de estudantes queimava bonecos de pano de Maluf.
- Ainda em Salvador, o ministro da Aeronáutica, brigadeiro Délio Jardim de Mattos, em seu discurso, atacou duramente o ex-governador baiano Antônio Carlos Magalhães: “Aqui não comparecem a demagogia, o caciquismo, a bravata e o oportunismo”. ACM entendeu o recado e disparou de volta, contra o apoio dos militares a Maluf: “Trair a revolução é apoiar um corrupto para presidente”. Maluf depois anunciou que processaria ACM por injúria, calúnia e difamação.
- Aconteceu em Goiânia o comício inaugural da campanha para presidente de Tancredo Neves. O evento se transformou em uma festa cívica, resgatando o sentimento de civilidade das manifestações pelas Diretas no início do ano. A cantora Fafá de Belém voltou a emocionar o público cantando “Menestrel de Alagoas” e o locutor Osmar Santos comandava a multidão: “Tancredo quando, gente?”, e a população gritava: “Já”.
- Como aconteceu em Brasília, possíveis comunistas pichavam muros: “Tancredo Já – PC do B”. As bandeiras vermelhas do PC do B nos comícios não agradavam Tancredo, que temia que o símbolo comunista afastasse o empresariado e certamente desagradava o governo. Descobriu-se depois que os pichadores eram do exército. O caso não foi comentado pelas autoridades.
- Vazou a informação de que o Centro de Informações do Exército, órgão do Ministério do Exército chefiado pelo general Íris Lustosa, era o responsável pelos cartazes nas paredes de Brasília com proclamações de apoio do Partido Comunista Brasileiro à candidatura Tancredo Neves e pelas bandeiras vermelhas nos comícios do mineiro. A ideia era desestabilizar a candidatura de Tancredo Neves.
- As crises de coluna do presidente Figueiredo não davam trégua. Em suas últimas aparições, Figueiredo desfilava uma expressão tensa, rosto contraído e permanente mãos nas costas. O ortopedista Hauro Nishimura havia sido chamado para socorrer o presidente. A maior missão do médico era não afastar Figueiredo da presidência, para seu vice, Aureliano Chaves ter que assumir.
- Figueiredo fez pronunciamento na cadeia de rádio e TV e condenou a ameaça comunista representada pelas bandeiras vermelhas no comício de Goiânia e advertiu para a “preocupante e recente ameaça de ruptura”. E os altos comandos do Exército, Marinha e Aeronáutica se reuniram e divulgaram nota oficial acusando a oposição de radicalizar a campanha da sucessão e de colocar em risco a estabilidade do regime e o futuro da abertura.
- Uma ala militar estava tentando interferir na sucessão presidencial. Alguns governadores do PDS que não tinham fechado o voto com Maluf receberam emissários militares com recado claro: haveria uma reação militar contra a Frente Liberal.
- Setores mais duros do regime militar planejavam a decretação de medidas de emergência para cada cidade onde o candidato Tancredo Neves fizesse comício. E Brasília, no dia da reunião do Colégio Eleitoral, estaria sob medidas excepcionais que restringiriam o direito de reunião. As emissoras de TV não iriam transmitir a sessão.
- Outro tipo de desgaste acometia a campanha de Tancredo: a generalidade das propostas e o não comprometimento claro em temas polêmicos. A imprensa, altamente favorável à campanha de Tancredo, começava a criticar esta postura. O adversário Paulo Maluf comemorou e passou a criticar abertamente Tancredo por adiar indefinidamente o debate na Rede Globo. O confronto era a esperança de Maluf para reverter sua impopularidade.
- O favoritismo da imprensa à campanha de Tancredo estava incomodando. O ministro das Comunicações Haroldo de Mattos, o assessor de Comunicação Social Pedro Paulo Leoni Ramos e o porta-voz da Presidência Carlos Átila se reuniram com a diretora da Censura Federal, Solange Hernandez, e o coronel comandante do Departamento Nacional de Telecomunicações, Antônio Fernandes Neiva, para discutirem fórmulas de pressionar os veículos de comunicação a serem mais isentos.
- Maluf teria recebido informes de assessores infiltrados no regime revelando que a maioria dos governistas há havia abandonado sua candidatura. Só três ministros eram fiéis ao candidato: Ibrahim Abi-Ackel, Murilo Badaró e Delfim Netto, respectivamente da Justiça, da Indústria e Comércio e do Planejamento.
O Itamaraty distribuía sinopses pessimistas sobre as chances do candidato para embaixadas no exterior e o Instituto de Planejamento Econômico Social (IPEA) repassava estudos estratégicos a Tancredo.
- O chefe do Gabinete Civil, Leitão de Abreu, não permitiu que Carlos Átila descredenciasse a agência de publicidade DPZ, tida como ligada a Tancredo Neves.
 

Artes & Espetáculos

Cinema

Scarface

Do diretor Brian de Palma, retrata a carreira violenta de um criminoso cubano exilado no mundo das drogas em Miami. Scarface foi a grande estreia de De Palma em filmes de gângster. A atuação de Al Pacino como protagonista foi aclamada por crítica e público.

  

Vidas sem Rumo

Francis Ford Coppola, o grande cineasta de Apocalipse Now e O Poderoso Chefão faz em Os Outsiders um filme menor sobre adolescentes órfãos tentando sobreviver e vencer em Oaklahoma. Descendentes de mexicanos, tentam se superar um mundo de preconceitos e criminalidade.

Nostalgia

De Andrei Tarkovsky, narra a jornada mística do poeta russo Andrei Gorchakov à Itália para pesquisar sobre um músico russo do século 19 que se suicidou no exílio. Enquanto convive com sua bela intérprete e com um homem tido como louco, ele rompe com a realidade e mergulha em profunda introspecção espiritual, assaltado por lembranças da infância e da terra natal.

Carmen

Baseado na ópera de Bizet, o filme de dança é um primor do cinema espanhol. Com direção de Carlos Saura, o filme recria a famosa história de amor e ódio, onde as paixões devoradoras conduzem os personagens à destruição. O trabalho do diretor foi elogiado, sobretudo, por conseguir incorporar a dança e a música espanholas paralelamente à ópera.

Esportes

Maguila

Maguila ganhava sua 11º luta em menos de 2 anos de carreira. E conquistava ali o título sul-americano de boxe, da categoria dos pesos pesados. O adversário, o argentino Juan Antonio Figueroa, do alto dos seus 2 metros, suportou apenas 1 minuto e 15 segundos de luta contra o brasileiro. Maguila, invicto, com 26 anos, 1,86 metro de altura e 97 quilos, tinha boa técnica, velocidade, dava golpes com violência. Desde Éder Jofre, campeão mundial dos pesos-galo, na década de 60, e dos pena, na década de 70, o país não via um pugilista com tanta habilidade e um futuro promissor nos ringues.

Alain Prost

Na Fórmula 1, a disputa entre o francês Alain Prost e o austríaco Niki Lauda, ambos da McLaren, era dura: os dois brigavam pelo primeiro lugar do campeonato. Cada um deles venceu cinco provas, mas Lauda se consagrava. Ele havia se tornado, com as últimas vitórias, o piloto que mais pontos somou na Fórmula 1.

Amyr Klink

Terminava em Salvador a aventura de Amir Klink, um economista apaixonado por barcos, pelo mar e por grandes desafios. Ele se propôs uma travessia solitária num pequeno barco a remo entre a África e a Bahia e durante 101 dias atravessou 7 mil quilômetros do Atlântico contra a opinião de navegadores experientes e família. No livro publicado após a viagem (Cem Dias entre o Céu e o Mar), Klink faz um relato detalhado comovente. O cotidiano era feito de remar oito horas por dia, de fazer cálculos precisos, de tirar alegria da refeição desidratada, e de ter muito tempo para só contar consigo mesmo diante da natureza. Após a chegada em Salvador, Amir Klink resumiu o sentimento que o movia rumo às aventuras: “O medo de quem navega não é o mar, mas a terra”.

Imprensa & TV

Os 25 anos do JN

Ao completar 15 anos no ar, o Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão, se consagrava como o programa mais visto e mais influente no país. De segunda-feira a sábado, 28 milhões de telespectadores ficam em frente à TV para assistir aos 25 minutos de programa e atestam o sucesso do que antes não existia: o telejornalismo. De acordo com o dono da emissora, Roberto Marinho, alcançar esse êxito era um ponto de honra para uma emissora que nasceu de um jornal, O Globo. Para muitos brasileiros, o Jornal Nacional veio a se tornar um novo hábito, alterando desde a hora do jantar até a maneira de se informar. A mudança de comportamento aconteceu também entre os políticos, que tiveram que aprender truques para se apresentar melhor frente às câmeras. Uma crítica, entretanto, era quanto ao conteúdo. A tônica do telejornalismo global era dar a informação objetiva. Em uma edição do Jornal Nacional, a média era o uso de mil palavras. Em uma página do jornal impresso, em contrapartida, há uma média de quatro mil. Outra crítica dizia respeito ao envolvimento cauteloso da TV Globo em relação a fatos políticos. Na campanha pelas Diretas, por exemplo, a emissora entrou atrasada na cobertura. Foi só a partir do comício da Candelária, no Rio de Janeiro, que o Jornal Nacional começou a enfocar a campanha como um acontecimento importante.

Carlos Átila e o puxão de orelhas

Entre o final de setembro e início de outubro, jornais e revistas começaram a mostrar impaciência com a superficialidade das propostas e as contradições de Tancredo Neves, que prometia coisas diferentes e contraditórias para diferentes públicos, conforme a plateia. A revista Veja acusou-o de querer chegar à Presidência a qualquer preço e O Estado de S. Paulo fez-lhe uma comparação desfavorável ao analisar o teor das entrevistas concedidas por ele e Paulo Maluf ao Jornal do Brasil. O mau humor coincidiu com reuniões do porta-voz da Presidência da República, Carlos Átila, com donos de veículos de comunicação e os chefes do Departamento Nacional de Telecomunicações e da Censura Federal.

Marcos

Discovery

A missão de seis dias da nave americana Discovery no espaço foi considerada um sucesso. Os satélites de comunicação foram lançados ao espaço em operações sem falhas e a principal missão foi considerada também perfeita: a ocupação comercial do espaço. A bordo da Discovery, o engenheiro industrial de 32 anos, Charles Walker, que pagou à Nasa 80 mil dólares e fez, no espaço, experiências bem sucedidas de filtragem em ambiente sem gravidade, com eficiência 450 vezes superior ao dos laboratórios na terra. Durante toda a viagem os seis tripulantes só tiveram um contratempo: um bloco de gelo se formou no tubo de escapamento de dejetos da nave, entupindo-o. Apenas Judith Resnik, única mulher a bordo, foi autorizada a usar o banheiro e os outros cinco tiveram que utilizar sacos plásticos.

Quem morreu

Janet Gaynor (1906-1984)

Atriz considerada a primeira dama do cinema americano por ter sido a primeira mulher premiada com o Oscar (melhor atriz por interpretação em 3 filmes: Aurora, Sétimo Céu e Anjo das Ruas, em 1928. Em 1939, aos 33 anos, Janet Gaynor se aposentou das telas como a mais bem paga atriz de Hollywood. Entre 1952 e 1974, teve uma fazenda no Brasil, no pantanal matogrossense.

Alberto Pilone (1914-1984)

Alberto Pilone (1914-1984) – Escultor argentino. Mudou-se com a família para a Itália quando ainda era criança e um topógrafo em Turim o iniciou em trabalhos com esculturas. Em suas esculturas, consideradas simples e livres de ostentação, utilizava materiais comuns como cimento e tinta preta em papel branco. Pilone era um artista introspectivo que acreditava que só se pode criar na solidão.

Tecnologia

A vez dos programas de computador

O objetivo da Expo Soft era mostrar aos usuários que os computadores não são nada sem os programas. Os consumidores americanos já estavam sendo aconselhados por especialistas a definir em primeiro lugar os programas que desejavam ter e só depois escolher o computador com a capacidade de executá-los. As empresas de comercialização de programas no Brasil queriam mostrar aos consumidores essa lógica operacional. E conseguiram. Compareceram na Expo Soft que aconteceu no Rio de Janeiro 5 mil pessoas e 35 empresas participaram mostrando seus produtos. Na época, estavam registrados na Secretaria Especial de Informática 1.700 programas para microcomputadores.

Saúde e Medicina

Hepatite pelo ralo

A prática de submeter o sangue utilizado em transfusões ao teste capaz de detectar o vírus da hepatite B revelou um problema alarmante. O exame havia se tornado obrigatório no Brasil em 1980 e o hematologista baiano Estácio Ferreira Ramos fez naqueles dias uma denúncia grave: “Quando o resultado do teste é positivo, o sangue contaminado é desprezado e jogado pelo ralo, indo infectar rios e praias pela rede de esgotos”. Ele disse que essa prática era comum na maioria dos hospitais e clínicas do país e seus estudos revelaram ainda que o número de portadores do vírus da hepatide B havia triplicado na Bahia desde a obrigatoriedade do teste.