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Abril/84
Política
Os grandes comícios, o fim da Emenda das Diretas e as costuras pró-Tancredo
- Durante as comemorações dos 20 anos da Revolução de 1964, o presidente Figueiredo foi à televisão anunciar que iria enviar ao Congresso a Emenda nº. 25, com eleição direta em dois turnos para o sucessor do seu sucessor, em 1988.
- Artistas, intelectuais e o povo clamavam por Diretas Já. A oposição queria levar o maior número de pessoas para as portas do Congresso no dia da votação da Emenda.
- Os comícios pelas Diretas na Candelária, no Rio de Janeiro, e no Anhangabaú, em São Paulo, produziram as duas maiores manifestações da história do Brasil, com estimados 1 milhão e 1,3 milhão de pessoas, respectivamente.
- O comandante do II Exército, Sérgio Ary Pires, havia dado o recado pessoalmente ao governador de São Paulo, Franco Montoro: o governo não iria admitir que o movimento pelas eleições fizesse uma marcha em Brasília na semana em que o Congresso votaria a emenda Dante de Oliveira, no dia 25 de abril. Os governadores Tancredo Neves, de Minas, e Íris Rezende, de Goiás, também foram avisados.
- Brasília foi colocada sob o controle de medidas de emergência. O executor dessas medidas foi o general Newton Cruz, comandante militar do Planalto.
- As preocupações na área militar provocaram a instalação de um telefone ligado diretamente ao comando do I Exército, no Rio, e o gabinete do ministro do Exército, general Walter Pires, em Brasília. Se houvesse tumulto ou quebra-quebra, o ministro seria avisado imediatamente. O telefone vermelho nem saiu do gancho.
- Artistas foram escalados para ir a Brasília dobrar a resistência dos parlamentares opositores às Diretas no dia da votação da Emenda Dante de Oliveira.
- O deputado Francisco Franciscato (PDS/SP) atribuiu ao presidente Figueiredo uma declaração favorável às Diretas, durante sua viagem a Marrocos: “Se eu estivesse no Brasil, seria 1 milhão e um na Candelária”. Franciscato era um dos amigos mais chegados no meio político do presidente Figueiredo. A declaração foi desmentida no dia seguinte, mas já havia feito estragos.
- Mulheres dos parlamentares do PMDB e atrizes entraram na campanha pelas Diretas. Trajando camisetas amarelas com os dizeres: “Nós, mulheres, queremos votar”, foram às casas dos deputados do PDS e apelaram para que suas esposas os convencessem a apoiar as Diretas.
- No dia 21 de abril, em Ouro Preto, ao pé da estátua de Tiradentes, o governador mineiro Tancredo Neves repetiu a frase do alferes Joaquim José da Silva Xavier: “Se todos quisermos, haveremos de fazer deste país uma grande nação”. E completou: “Só encontraremos a saída para conflitos irreversíveis se as forças que representam o poder e a sociedade civil souberem conter as suas posições de radicalismo, que levam a confrontos desiguais e funestos”. Tancredo assumia ali o papel de conciliador.
- Sabia-se que a Emenda Dante de Oliveira não seria aprovada, diante da maciça ofensiva civil e militar do governo e pela forte pressão no Congresso.
- O presidente Figueiredo se empenhou pessoalmente na derrota da Emenda Dante de Oliveira. Foi à televisão informar que a emenda com a qual o governo pretendia enfrentar a oposição e a população ficara pronta – prevendo eleições diretas só em 1988 e decretou medidas de emergência.
- Na véspera da votação, diante do Congresso, 4 mil mulheres promoveram uma manifestação pelas Diretas e desfilaram bandeiras vermelhas. O presidente Figueiredo não suportava essas bandeiras. Desgostou também ao presidente a manifestação de artistas como Maitê Proença, Lucélia Santos e Lygia Fagundes Teles que tentavam persuadir parlamentares do PDS.
- O esforço pessoal do presidente mostrou-se eficaz e provou que o grupo Pró-Diretas do PDS era mais frágil do que a oposição pensava. O líder do PT, deputado Airton Soares: “Com as medidas de emergência, não há chances de a emenda ser aprovada”.
- Na véspera da votação, um buzinaço combinado com um panelaço tomou conta dos grandes centros. Era a população pedindo a aprovação da emenda Dante de Oliveira. Em Brasília, o general Newton Cruz, em frente ao Ministério do Exército, lançou-se em frente aos carros que buzinavam e se tornou ali talvez o único general do mundo a lutar contra buzinas.
- O general também brigou com o deputado Jacques Ornellas (PDT-RJ). Newton Cruz teria chamado o parlamentar de “comunista”. Recebeu em troca um “fascista e corrupto”. Teria dado um soco no deputado.
- No dia da votação, artistas como Fafá de Belém e Christiane Torloni circulavam no Congresso como se fossem parlamentares. O cineasta Tizuka Yamazaki fazia imagens para um filme. Estudantes cantavam em frente e nas laterais do Congresso.
- A reunião da votação da Emenda Dante de Oliveira foi tranquila, apenas alguns parlamentares fizeram provocações aos adversários políticos. O deputado e primeiro-secretário Fernando Lyra, ficou encarregado de fazer a chamada para a votação e, por 22 votos, a Emenda foi arquivada. Na reunião de votação, 113 deputados do PDS contrários não compareceram, 65 disseram não, 55 sim, e 3 se abstiveram. Para aprovar o texto, eram necessários 320 votos. Nas galerias da Câmara, a multidão gritava: “O povo não esquece, acabou o PDS”. No dia seguinte, distúrbios no Rio e em São Paulo.
- O ministro Leitão de Abreu conversa com oposicionistas sobre alternativas às Diretas. Oito governadores do PMDB, com o governador de São Paulo, Franco Montoro, discutem o que fazer após a queda das Diretas. Fernando Henrique, Severo Gomes e José Richa, entre outros, já discutem a hipótese Tancredo. Governadores do PDS, em reunião da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), também falam em Tancredo como único nome capaz de evitar um impasse insticuional. Tanto a oposição quanto parte do PDS independente não aceitava a hipótese Andreazza ou Maluf.
- O líder do PDS, Nelson Marchezan, um dos poucos homens a falar com franqueza com o presidente Figueiredo, lhe deu um conselho: “Ou o senhor lidera as negociações ou o governador Tancredo Neves toma essa bandeira”.

Economia
Novas notas
Com o Cruzeiro a cada dia mais desvalorizado, a equipe econômica do governo optava por colocar em circulação novas cédulas de maior valor, como as de 10.000 e de 50.000, com as efígies de Oswaldo Cruz e Rui Barbosa, respectivamente. Com a inflação acima de 200%, valeriam 1/3 no final do ano.
Internacional
Cuba se retira da África
Cuba mantinha 25 mil soldados em Angola, 10 mil na Etiópia, 750 no Congo e, após 25 anos de intervenção, Fidel Castro começava a ter que retirar seu exército em outros países. Em Angola, a decisão foi tomada por causa de um acordo feito com a África do Sul prevendo a retirada de todas as forças estrangeiras na região. Na Etiópia, desde dezembro passado, os cubanos estavam realizando uma acelerada retirada. E com isso, a situação de Cuba se complicava porque, longe dos campos de combate, o país não receberia mais a ajuda soviética a que tinha direito, além de deixar de receber pagamento pela exportação de mão-de-obra militar – em Angola e na Etiópia, cada soldado cubano recebia aproximadamente 600 dólares por mês pagos diretamente ao Tesouro de Havana. Especulava-se que Cuba teria recebido de 2 bilhões de dólares de Angola e 500 milhões da esfomeada Etiópia.
Artes & Espetáculos
Cinema
Laços de Ternura
Debra Winger e Shirley MacLaine foram indicadas ao Oscar para o prêmio de melhor atriz pelo mesmo filme, Laços de Ternura (Terms of Endearment), do diretor James L. Brooks. MacLaine ganhou a estatueta, embora crítica e público torcessem por Debra Winger. Na trama, três décadas de relacionamento entre mãe e filha foram mostradas a partir de brigas e reconciliações.
Teatro
Oh! Calcutta!
A versão brasileira surgiu depois de quinze anos de proibição pela Censura Federal. Durante metade do espetáculo, atores e atrizes permaneceram nus em cena falando de sexo. Tratava-se de uma sucessão de esquetes em que os temas eram a troca de casais, o estupro e fantasias eróticas. Na opinião do produtor da peça no Brasil, o colunista Gilberto Di Pierro, a peça era uma comédia simples e elegante sobre sexo, um tema que nunca sai de moda.
Esportes
Ricardo Prado
O brasileiro Ricardo Prado, com 19 anos e 1m67, nadava pela Southern Methodist University no Campeonato Universitário dos Estados Unidos, em Cleveland, Ohio. E venceu as 400 jardas em nado medley individual, a prova mais difícil e emocionante da competição. Ricardo Prado fez a prova em 3m46s86. Apesar de ter conquistado o primeiro lugar, saiu frustrado da piscina: não quebrou seu próprio recorde mundial: 3m46s. Ricardo Prado era a esperança na natação para as Olimpíadas de Los Angeles, em julho e agosto.
Comportamento
Os números das Diretas
368 mil? 1 milhão ou 1,2 milhão? Ou 1,7? O número dos organizadores, da polícia ou dos jornais? Era um campeonato tentar acertar o número de pessoas nos comícios das Diretas, que variavam conforme as informações da Imprensa, da polícia ou dos organizadores. O da Candelária, no Rio, teve 368 mil segundo cálculos estatísticos da Folha de S. Paulo, 400 mil segundo a polícia, 1 milhão para os organizadores e até 1,200 para o locutor Osmar Santos, que apresentava as atrações.
Imprensa & TV
O Projeto Folha
A campanha das Diretas com a votação da Emenda Dante de Oliveira deu visibilidade aos avanços e contradições do projeto de modernização da Folha de S. Paulo, que vinha sendo implantado desde 81 com forte resistência dos jornalistas veteranos. Com um tom panfletário, que incluía tarjas na primeira página mobilizando a população e publicação dos nomes e telefones dos deputados contra a Emenda, aumentou a sua tiragem, ganhou repercussão nacional e estabeleceu as bases de um novo tipo de jornalismo, simultaneamente crítico e engajado. Seu projeto editorial considerava claramente notícias e ideias como mercadorias a serem tratadas com rigor técnico – o que exigiria informação correta, interpretação competente sobre essa informação e pluralidade de opiniões sobre os fatos, paralelamente a uma drástica reformulação técnica que estabelecia controle de qualidade dos textos e novos fluxos de produção industrial.
Os números dos comícios
Com base em informações técnicas, a Folha de S. Paulo informou, para estupefação geral, que o grande comício das Diretas no Rio tinha 368 mil pessoas. Os outros jornais vinham inflando os números a cada comício, com base na informação dos organizadores: 400 mil em Belo Horizonte, 500 mil num passeata no Rio, 1 milhão na Sé, 1,2 milhão na Candelária e 1,7 milhão no Anhangabaú.
O descrédito da Imprensa
Numa pesquisa encomendada ao instituto Gallup pela revista Veja, a Imprensa apareceu em oitavo lugar num ranking de credibilidade das instituições. Pela ordem, do primeiro ao sétimo lugares estavam: Correios, Professores, Igreja, Médicos, Bancos, Sindicatos, Justiça. Abaixo da imprensa ficaram os Empresários, a Televisão, o Governo Federal, a Propaganda e, por último, Deputados e Senadores. De acordo com a pesquisa, de cada 100 brasileiros, só seis acreditavam que os jornais e revistas “publicam os fatos e as notícias exatamente como acontecem”.
Marcos
O Dragão das Diretas
Com 14 metros de comprimento, estava presente nos comícios pelas eleições diretas. Confeccionado em papel marché e tecido pelo artista plástico Alex Chacon, o Dragão acabou se tornando um dos símbolos pelas Diretas. Chacon, de 48 anos, já tinha decidido que destino teria o Dragão. "Ele será jogado no Lago de Brasília. Todo lago que se preza tem um monstro submarino”, comentou o artista com bom-humor.
Jericar
O jegue que subiu a rampa do Congresso na votação da Emendas das Diretas era o mesmo com que, em 1980, seu dono, Damião Galdino da Silva, tentara presentear o Papa João Paulo II, em visita ao país. Uma empresa carioca chegara a oferecer o transporte para o Vaticano. Com a recusa do Papa, virou celebridade e passou a ser utilizado como atração nas manifestações populares, com tabuletas de protesto penduradas no pescoço. Meses depois das Diretas, transferido para um terreno de 28 alqueires no Lago Sul de Brasília, a 25 quilômetros da sede do Congresso Nacional, o burrinho parou de comer. Emagreceu e veio a morrer em janeiro, no mesmo dia que Tancredo Neves era eleito no Colégio Eleitoral.
O primeiro apagão
Centenas de luzes vermelhas brilhavam no painel de 13 metros da sede da Cemig (Centrais Elétricas de Minas Gerais) em Belo Horizonte e significavam que todo o sistema elétrico estava em pane. O mesmo aconteceu no painel da sede da Cesp (Comando de Operações das Centrais Energéticas de São Paulo), na capital paulista. E no Rio de Janeiro, a cena se repetiu na sala do controle de operações de Furnas. Essa pane geral deixou 45 milhões de pessoas em seis Estados sem energia elétrica, o maior blecaute ocorrido no Brasil desde que a primeira luz foi acesa no país em 1879. O que causou o blecaute foi uma pane nos dois transformadores na usina de Jaguará, no sistema Cemig e localizada a 450 quilômetros de Belo Horizonte, na divisa de Minas e Goiás.
O caos estava armado, principalmente no Estado de São Paulo que consumia quase a metade da energia gerada no sistema energético do Sudeste e ficou sem luz por longos 28 minutos. Com os sinais de trânsito desligados, multiplicaram os engarrafamentos, o metrô parou, os ônibus elétricos pararam e os movidos a diesel não tinham espaço para avançar. A falta de trens produziu um quebra-quebra na Estação Júlio Prestes, pessoas que não conseguiam embarcar começaram a depredar os ônibus, quebraram vidraças, guichês, portões. No Rio de Janeiro, a falta de energia fez aumentar o número de assaltos nas ruas e o pânico tomou conta das pessoas.
Tragédias
Choque no ar
Uma coincidência trágica no ar: um avião bandeirante com atraso de 20 minutos do horário previsto para aterrissagem no aeroporto de Imperatriz, no Maranhão, e outro que chegaria também com 10 minutos de atraso se chocaram no ar, a 350 metros de altitude. O primeiro perdeu a cauda, mas desceu em segurança no Rio Tocantins. Salvaram-se 15 passageiros e os tripulantes que foram recolhidos por barqueiros. O segundo, sem motor e sem asa, desceu em parafuso e explodiu ao atingir o solo, matando dois tripulantes e 16 passageiros.
Tecnologia
Os jovens descobrem o computador
Reportagens mostravam que as crianças estavam formando uma vanguarda tecnológica nascida da popularização dos microcomputadores no Brasil, na esteira de fenômeno semelhante nos Estados Unidos e Europa. Os jovens estavam crescendo ao lado dessas máquinas e aprender a lidar com as teclas e com os programas estava se tornando natural. O número de computadores no Brasil não chegava a 9 mil em 1980. Em abril de 1984, somente na área educacional e doméstica, o número chegou a 70 mil e a proporção nacional era de 4 mil estudantes por micro. A pergunta hoje parece ridícula, mas jovens na faixa etária de 20 anos se questionavam na época: será possível viver profissionalmente sem um computador? Curiosidade: a memória do micro mais barato do mercado, o TK-83, armazenava no máximo duas páginas datilografadas.