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Os últimos dias de Tancredo

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Novembro/84

Política

Tancredo consolida maioria e recebe apoio do Exército. Maluf esperneia e ainda tenta provar que vence

- Tancredo contava com o apoio de 18 governadores, 95 dos 138 delegados estaduais e uma estimativa preliminar de 133 votos a mais do que seu adversário no Colégio Eleitoral. Faltavam apenas os oito votos do PT. O líder Aírton Soares era o único que ameaçava votar em Tancredo contra a determinação do partido de não ir ao Colégio Eleitoral.
- Uma pesquisa encomendada pela revista Veja ao Instituto Gallup apontava Tancredo Neves como o mais preparado para assumir a presidência.
- Maluf estava vivendo dias de tormenta. O Palácio do Planalto, convencido da vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, queria a renúncia de Maluf. O ministro do Planejamento, Delfim Neto, pedira pessoalmente ao candidato do PDS que renunciasse. O próprio presidente Figueiredo havia dito: “O fim da candidatura Maluf é uma questão de dias, ou horas”. A última pesquisa do SNI dava 157 votos de frente para Tancredo.
- Maluf não aceitava os números e tentava convencer o presidente Figueiredo de que poderia ganhar. O Colégio Eleitoral era composto de 686 membros (479 deputados federais, 69 senadores e 6 deputados de cada uma das 23 Assembleias Legislativas). Maluf contabilizava 124 votos acima do adversário, considerando os 36 que já tinha antes da criação da Frente Liberal, 18 deputados ausentes do PDT, do PMDB e do PT e 35 votos entre oposicionistas do PTB, do PDT e do PMDB – que computou em dobro, na medida em que cada voto a menos para Tancredo e a seu favor valeria por dois.
- Só os comediantes não abandonaram Maluf. Mussum: “Estou aqui malufandis”. Chacrinha: “Quem não malufica, se trumbica”.
- O Tribunal Superior Eleitoral, ao responder a uma consulta do deputado Gerardo Renault, deu uma notícia excelente para Tancredo, mas péssima para Maluf. Os integrantes do Colégio Eleitoral poderiam votar livremente e não teriam seus votos cassados caso apoiassem outro candidato, diferente do partido.
- Jornalistas quiseram saber do ministro Walter Pires se haveria golpe com a vitória de Tancredo. O general respondeu: “Considero uma ofensa perguntar a um ministro militar se vai haver golpe. É claro que quem ganhar leva”.
- Maluf começava a assimilar os maus rumos da campanha em uma reunião com assessores, mas deixou claro que não existia a possibilidade de renúncia.
- Depois de uma reunião com os generais do Alto Comando do Exército, o ministro Walter Pires divulgou nota oficial informando que “o Exército mantém-se na firme disposição de apoiar o projeto de abertura do presidente Figueiredo, que deverá se consolidar com a eleição do futuro presidente da República, pelo Colégio Eleitoral, na forma da Lei. A nação, que sempre contou com as Forças Armadas nos momentos decisivos de sua História, pode confiar que serão plenamente atendidos seus anseios de preservação das instituições democráticas”.
- Depois da nota, um decreto do presidente Figueiredo transferiu o general Newton Araújo de Oliveira e Cruz do Comando Militar do Planalto para a vice-chefia do Departamento Geral de Pessoal do Exército, um cargo burocrático. A posse seria no dia 9 de janeiro. Declaração do general Newton Cruz: “Fui o único cassado nessa história”.
- A campanha de Tancredo crescia e o candidato assumia um tom mais cerimonioso, numa postura de presidente da República.
- Em Vitória, uma senhora colocou sob seu ombro direito uma bandeira nacional, enviezada no peito como uma faixa presidencial. Tancredo a ostentou dignamente e esta foto foi estampada em toda a imprensa. Tancredo lançou em discurso uma Nova República, declarando: “Vamos, com a graça de Deus, presidir o momento histórico... de uma fase de avanço institucional, político, econômico e social”.
- Nova pesquisa do SNI revelava que Tancredo tinha mais de 200 votos de vantagem sobre Maluf.
- Vazou a informação que Tancredo havia se encontrado às escondidas com o general Walter Pires. Aparentemente este era o terceiro encontro. Tancredo teria garantido ao general que em seu governo não haveria lugar para o revanchismo nem para atitudes vingativas e demagógicas contra as Forças Armadas. Eles haviam conversado também sobre o futuro de Pires no novo governo e Tancredo chegou a oferecer o Ministério do Exército da nova ordem política, mas o general manifestou o desejo de ser embaixador em Portugal. O candidato a presidente desmentiu os encontros com Pires e os que teria tido com o presidente Figueiredo e com o ministro do Planejamento, Delfim Netto, a 18 de julho, quando sua candidatura começava a crescer.
- O candidato Paulo Maluf teria procurado o general Newton Cruz, entre setembro e outubro, com um pedido de eliminação física de Tancredo Neves, mais especificamente um “ato de força”. O candidato do PDS usava como argumento a informação de fonte segura de que o mineiro teria uma doença gravíssima e que talvez nem tomasse posse. Se empossado, abriria vaga logo para José Sarney. A informação teria sido dada pelo próprio Newton Cruz em uma roda de amigos.
 

Economia

Os carros salvam

A exportação de veículos funcionava para as montadoras brasileiras como uma alternativa para o achatamento do mercado interno. O presidente da Volkswagen do Brasil, Wolfgang Sauer, anunciou que a empresa saía do vermelho depois de quatro anos no prejuízo. A empresa fecharia 1984 com um lucro de 50 bilhões de cruzeiros, contra um prejuízo de 7 bilhões em 83. Sauer comunicou também o fechamento de um contrato com o Iraque para a exportação de 100 mil veículos Passat. Em troca, a empresa iria receber petróleo. Este foi o maior contrato realizado por uma montadora brasileira que também estudava vender para o Iraque o novo modelo do Santana.

Internacional

O fim das ditaduras latinoamericanas

Com a eleição de Julio Maria Sanguinetti no Uruguai, em eleições livres após 11 anos de ditatura, a América Latina completava um giro em direção à democracia. Em 1979, só a Colômbia e a Venezuela viviam sob a bandeira da democracia na América do Sul. E no início de 85, dentre todos os 34 países do continente, restavam apenas 8 ditaduras: quatro à direita (Pinochet no Chile, Alfredo Stroessner no Paraguai, Jean Claude Duvalier no Haiti e Mejía Victores na Guatemala) e quatro à esquerda (Fidel Castro em Cuba, Linden Burham na Guiana Inglesa, Daniel Ortega na Nicarágua e Desi Bouterse no Suriname). De acordo com analistas políticos, o colapso autocrático parecia ter uma causa: ditadores não se mostraram melhores que líderes democráticos para administrar seus países. O Brasil no fim do mandato do presidente João Figueiredo, por exemplo, tinha uma dívida externa de 100 bilhões de dólares e uma inflação de 230%. Na Argentina, depois dos anos dos generais no poder, 35% das suas crianças estavam subnutridas, situação penosa para um país que se orgulhava de ter um padrão de vida semelhante ao europeu.

Artes & Espetáculos

Cinema

Era uma Vez na América

Dirigido por Sergio Leone, trata dos valores, ilusões e fracassos de um grupo de criminosos da Máfia judaica em Nova York. O filme foi considerado um conto épico: são quase quatro horas de duração (na versão do diretor – os produtores temendo fracasso de bilheteria o reduziram para pouco mais de duas horas), orçamento de trinta milhões de dólares e cenários e figurinos de três épocas diferentes. É o último de uma trilogia (Era uma vez no oeste e Quando explode a vingança).

  

Broadway Danny Rose

Outro filme de Woody Allen que estreou em 1984, conta a história de um otimista agente fracassado de artistas da Broadway que acaba se envolvendo com a máfia. A comédia foi uma homenagem irreverente ao mundo artístico de Nova York.

  

I Festival Internacional de Cinema, TV, Vídeo do Rio de Janeiro

Organizado pelo produtor de cinema Nei Sroulevich. Após oito meses de preparativos e um custo de 6 bilhões de cruzeiros, o evento exibiu números de respeito: foram mostrados 17 filmes na competição oficial e outros 300 em dezenas de mostras paralelas, em 13 cinemas da cidade para um público de 200 mil pessoas. O evento não teve ajuda financeira do governo federal e foi patrocinado pelas empresas Souza Cruz, Varig, Philip Morris e Balantine´s. O governo do Rio entrou com 248 milhões do total. Atrizes e atores famosos em todo o mundo compareceram, como Esther Willians, Dominique Sanda, Fanny Ardant, Dennis Hopper, Ugo Tognazzi e Richard Gere. O filme Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, foi o grande vencedor do Festival.

Cabra Marcado para Morrer

Do documentarista brasileiro Eduardo Coutinho, levou 20 anos para ficar pronto e denunciou os entraves da produção de arte nos anos de ditadura. Coutinho começara, em 1964, a fazer um filme no sertão de Pernambuco sobre o assassinato do líder do movimento pela terra das Ligas Camponesas, João Pedro Teixeira. Preso e com os equipamentos confiscados pelos militares, ele voltou à região 20 anos depois para entrevistar seus personagens e misturou jornalismo com o que sobrara das cenas de ficção. Cabra marcado para morrer recebeu um total de 12 prêmios. Foi o grande vencedor do I Festival Internacional de Cinema, TV e Vídeo do Rio de Janeiro.

Literatura

Tocaia Grande

Jorge Amado volta às histórias de jagunços e coronéis ao descrever o processo de formação de uma cidade nordestina nascida sob o signo da violência e da disputa de terras. A pequena Irisópolis deixa de ser lugar de pernoite e passa a lugarejo, depois a arraial. O lugar recebe prostitutas, tropeiros, jagunços, ciganos e trabalhadores que perderam emprego nos latifúndios. O romance revela a face obscura de um lugar em que a lei não vigora nem há presença formal do governo, numa sequencia de tramas carregadas de desejo e solidariedade.

Uma Autobiografia

O empresário americano Lee Iacocca - um ícone no mundo dos negócios - era um self-made man que muitos americanos já desejaram ver como candidato à presidência. Salvou a Chrysler Corporation da ruína financeira em apenas cinco anos em meio à crise da invasão dos carros japoneses, arquitetou a criação da minivan, criou o Iacocca Institute for Leadership e a Iacocca Foundation, que financia a pesquisa da cura da diabetes. Seu livro revolucionou a concepção de gestão e fez, a seu modo, uma revolução tão importante na indústria de automóveis quanto a de Henry Ford no início do século.

Música

Novo LP de Chico Buarque

Chico Buarque reapareceu com o novo álbum “Vai Passar”, com músicas que combinavam o romantismo do compositor com sua veia política crítica. Chico anunciou naquele novembro que voltaria aos palcos brasileiros (fora dos espetáculos políticos) no próximo ano, algo que não fazia desde 1975. A música Vai Passar, que deu nome ao álbum, virou hino da temporada e espécie de testamento do fim do regime militar:
“Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações”
“Palmas pra ala dos barões famintos,
Pro bloco dos napoleões retintos,
Pros pigmeus do bulevar...
Meu deus, vem olhar,
Vem ver de perto uma cidade a cantar,
A evolução da liberdade,
Até o dia clarear...”
 

  

Gilberto Gil

Seu rock internacionalizado fazia sucesso e seu novo show, “Raça Humana”, mostrava que o cantor não se limitava a interpretar sambas e baiões com instrumentos eletrônicos e que fazia sim um rock de vanguarda. O compositor inaugurou ali também um novo visual: os cabelos foram tingidos de marrom, cortados com uma franja desfiada ao estilo Michael Jackson, e o brinco de argola foi substituído por um pingente. “Raça Humana” foi considerado o melhor show do compositor até então.
 

Caetano Veloso

No show e no LP “Velô”, retomou o palanque da tropicália para vociferar contra o mundo, adentrando pelos acordes do rock, buscando nova sonoridade. A música “Podre Poderes” era reflexo disso, onde aparecia um Caetano incisivo e agressivo na interpretação.
“Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Índios, padres e bichas, negros e mulheres
E adolescentes fazem o carnaval
Queria cantar afinado com eles
Silenciar em respeito a seu transe, num êxtase
Ser indecente, mas tudo é muito mau
Ou então cada paisano e cada capataz
Com sua burrice fará jorrar sangue demais
Nos palanques, nas cidades, nas caatingas e nos gerais”
 

  

Comportamento

O fim do malandro carioca

Uma pesquisa feita pela Interscience Informação e Tecnologia Aplicada tinha ouvido 2928 cariocas de todas as classes e regiões da cidade tinha chegado a conclusões interessantes: o estereótipo do carioca alegre, malandro e liberado não era realidade em 1984. O resultado da pesquisa foi um retrato complexo do carioca, com centenas de estilos de vida diferentes e pensamentos também divergentes. O jeito vanguardista carioca de ser era mais uma lenda nacional que uma realidade: 84% eram contra o uso de drogas, 69% contra romances fora do casamento, 45% dos entrevistados não suportavam bebidas alcoólicas e, para 29%, a virgindade continuava sendo valor importante.

Imprensa & TV

Ombudsman do WP critica jornalistas

Sam Zagoria, o ombudsman do jornal americano Washington Post, um dos mais influentes daquele país, estava em São Paulo para participar de um Congresso e, dentre outros temas, chamou a atenção para o fato de a imprensa estar se tornando um grande negócio empresarial. De acordo com o jornalista, esta grandeza seria a causa da crescente desconfiança do público para com a imprensa. A tese de Zagoria é que há milhares de leitores para um grande jornal e apenas um punhado de jornalistas e editores. Então, quando algo do jornal incomoda o leitor, ele se sente indefeso, não há com quem se queixar sobre o assunto. Como os veículos viraram superestruturas, editores ficaram distantes dos interesses do leitor e inacessível a eles. O ombudsman criticou também a arrogância por parte dos jornalistas, especialmente os de televisão que se tornaram celebridades.

Marcos

Mário Eugênio

No dia 11 de novembro, o editor de polícia do Correio Braziliense, Mário Eugênio Rafael de Oliveira, foi assassinado com sete tiros. Ele foi morto por denunciar uma quadrilha em que policiais civis de Brasília faziam parte. O grupo era especializado em roubar carros em Brasília e Goiás para vendê-los na Bolívia. O esquema que o jornalista estava investigando era o seguinte: policiais libertavam presos da Delegacia de Furtos de Veículos para que roubassem os carros. Depois, os automóveis recebiam chapas e documentos frios antes de atravessar a fronteira e os ladrões utilizados pela quadrilha eram eliminados. Pelo menos 16 assassinatos deste tipo foram cometidos pela quadrilha.

Tecnologia

A primeira feira de Informática

A 1º Feira Internacional de Informática aconteceu no pavilhão de exposições do Riocentro, no Rio de Janeiro, e recebeu 200 mil pessoas interessadas em conhecer, comprar ou encomendar computadores. Os números no país eram admiráveis: a cada 5 minutos um computador era vendido e o setor da informática no Brasil crescia uma média de 30% por ano, apesar da maior recessão da história do país.

Sonho de colocar foguete em órbita termina no Oceano Atlântico

Quinze minutos depois de ser lançado de sua plataforma na Barreira do Inferno - a base espacial brasileira localizada nas proximidades de Natal, Rio Grande do Norte - o Sonda IV atingiu a altitude de 616 metros e, em seguida, caiu no oceano Atlântico. Toda a cúpula do governo estava presente na Barreira do Inferno, incluindo aí o presidente Figueiredo e o ministro-chefe do Serviço Nacional de Informações, Octávio Medeiros, e foi informada que o foguete caíra no mar, e com ele, um investimento de 1,3 milhão de dólares. O Centro Técnico Aeroespacial recebeu entre os anos de 1974 a 1984, dotações orçamentárias de 130 milhões de dólares para custear o programa espacial brasileiro. A expectativa é que até o fim da década de 80, o Brasil consiga lançar seus próprios satélites. E, para isso, o programa espacial vai requerer ainda 850 mihões de dólares.